50 ANOS DO ALOUETTE III - Uma pintura especial e um encerramento não-oficial

Texto: Paulo Mata 
Artigo publicado no jornal Take-Off de Dezembro de 2013




Neste último ano de 2013, durante o qual diversas iniciativas comemoraram o cinquentenário da frota de Alouette III (AL III) da Força Aérea Portuguesa (FAP), já muito (e bem) se escreveu sobre estre mítico helicóptero. Não vamos por isso repetir neste artigo a “matéria dada”, mas antes contar nalgumas pinceladas, a sua história mais relevante. Tentar perceber o porquê do carinho e a reverência com que ainda hoje é tratado, transversal a todos os que de um modo ou doutro com ele contactaram, e que é talvez um dos segredos da sua longevidade.
A força dos números não mente (50 anos, 142 unidades, 325.000 horas voadas, 8 esquadras, 555 pilotos formados) e o AL III apesar do aspecto franzino, acabou por tornar-se num caso único entre as frotas operadas desde sempre pela FAP. Números que significam sangue suor e lágrimas de muitos que o operaram, mas também a alegria, o conforto e a vida que muitos lhe devem.
A sua história merece por isso ser divulgada e para o efeito surgiu a ideia de a contar através duma aeronave especialmente pintada.

50 anos de história numa pintura


A proposição não era fácil. Podia até dizer-se à partida, que era história a mais para tão pouca “tela”, dado que a aeronave a decorar, não é grande em tamanho físico e muita da sua área está ocupada pela enorme “bolha” vítrea que constitui a cabina.
Mas já esta constatação em si, não deixa de encerrar um simbolismo, para a enormidade dos feitos que desempenhou uma aeronave tão pequena.
Havia ainda assim, que concretizar uma pintura em que, todos os que, por uma razão ou outra com o AL III contactaram, nela se pudessem rever, mantendo simultaneamente uma coerência estética e artística, a conferir pelo trabalho do artista gráfico Miguel Amaral. A concepção, essa foi do então Zangão-Mor, TCor Carlos Paulino.

Pormenor da pintura - bombordo

O lado de bombordo foi por isso reservado para as esquadras e o período das guerras de África, onde começou aliás a história dos AL III da Cruz de Cristo.
A cor “olive drab” dominante, foi escolhida para simbolizar o carácter bélico deste período, durante o qual os AL III actuaram em múltiplas frentes de combate e receberam aliás, o seu baptismo de fogo a nível mundial.
Apesar de não ser o tempo cronologicamente mais longo da sua vida operacional, foi porventura a época mais marcante da sua história e que mais gente marcou, dada a quantidade e tipologia das operações realizadas. No meio de nenhures em Angola, Guiné ou Moçambique (e até Timor-Leste se tivermos em conta um curto destacamento com duas aeronaves em 1975), o AL III significava para as tropas no terreno, apoio vindo dos céus, na forma dos reforços, mantimentos ou do fogo de cobertura que podia aportar com o helicanhão. Significava ainda um alívio e uma segurança moralizadores para as tropas, ao permitir uma rápida evacuação de tropas ou feridos, impossível de outra forma, dos remotos locais onde muitas vezes se encontravam.
Na porta esquerda do helicóptero de matrícula 19376, constam assim os emblemas das cinco esquadras de voo que operaram o AL III nas antigas províncias ultramarinas: Esquadra 94 também designada “Moscas”, baseada na BA9 em Luanda, a primeira a receber e operar o modelo na Força Aérea Portuguesa. Também de Angola está representado o emblema da Esquadra 402 Saltimbancos, então baseada no AB4 em Henrique de Carvalho. Da Guiné Bissau a simbologia da Esquadra 122 – Canibais, baseada na BA12 em Bissalanca, e de Moçambique a Esquadra 503 – Índios (com base no AB5 em Nacala) e 703 – Vampiros (baseada no AB7 em Tete), completam as unidades desta época representadas.
Por cima dos emblemas, em algarismos o ano de 1963, em que foram recebidas as primeiras unidades e se realizou o primeiro voo, pelo Cap. Abel Queiroz (primeiro comandante da Esquadra 94) em Luanda, a 18 de Junho.
A fechar o painel esquerdo, a transição da pintura para a cauda é feita através da silhueta de um zangão, que deu o nome à única esquadra de Alouette III a operar na metrópole, (a Esquadra 33 então baseada na BA3 em Tancos) onde era ministrada formação aos pilotos de helicópteros, com destino ao Ultramar. Foi também a única esquadra a efectuar a transição entre o período da guerra e pós-guerra, sendo posteriormente renomeada 552, mas mantendo o zangão como símbolo.
Apropriadamente, a Cruz de Cristo deste lado, bem como os algarismos da matrícula, adquiriram os formatos usados nas décadas de 60 e 70.

Pormenor da pintura - estibordo

O lado de estibordo representa o período do pós-guerra, podendo distinguir-se os dois esquemas de pintura ainda em uso actualmente na FAP: o camuflado e o dos Rotores de Portugal. Nestas duas pinturas englobam-se as actividades e missões desempenhadas neste espaço temporal e físico. O redireccionamento para novas ideologias e tácticas, em que se passaram a incluir o ataque anti-carro e o transporte de controladores aéreos avançados por exemplo. A formação de pilotos para outros ramos das Forças Armadas (Marinha e Exército) e outras frotas de helicópteros (Puma, Merlin e Lynx).
Uma vez mais, os emblemas de todas as unidades que operaram o AL III neste período, estão representados: Esquadra 551 (BA6 – Montijo), Esquadra 111 e Esquadra 33 (mais tarde Esquadra 552 conforme aludido anteriormente) da BA3 –Tancos. Após a extinção das Esquadras 111 e 551, a Esquadra 552 – Zangões, tornar-se-ia a única a operar o modelo em Portugal, sendo por isso a fiel depositária de toda a tradição e memórias das suas antecessoras. Em 1993 relocalizou-se na BA11 em Beja, onde está baseada até hoje.

Em destaque ainda do lado direito da fuselagem, os emblemas usados pela patrulha acrobática Rotores de Portugal, que entre 1976 e 2010 (ainda que com alguns interregnos) proporcionaram momentos mágicos nos céus, tirando partido das extraordinárias características da aeronave e de toda a proficiência dos homens que os pilotaram durante esses anos. As exibições dos Rotores de Portugal foram sempre um ponto alto dos eventos em que participaram, honrando e elevando as cores do país que servem.

Na deriva do aparelho, pintada a branco de ambos os lados, relembra-se uma das mais importantes missões realizadas após o regresso de África. Entre Fevereiro de 2000 e Julho de 2002, quatro AL III pintados com as cores das Nações Unidas foram destacados para Timor Leste, em apoio durante o crítico período de transição para a independência daquela antiga colónia portuguesa, conforme se sabe ocupada pela Indonésia durante aproximadamente duas década se meia. Foi a primeira vez que aeronaves portuguesas envergaram a cor branca das Nações Unidas e foi por outro lado, o regresso do AL III ao ambiente de guerra. O emblema deste destacamento está representado a estibordo, bem como a primeira das matrículas das Nações Unidas, usadas pelos aparelhos durante esse período.

A missão de Busca e Salvamento

O dorso da deriva, em vermelho “day glow”, evoca uma das missões de interesse público assumidas em Portugal continental depois do 25 de Abril: a busca e salvamento costeira, assegurada a partir de várias localizações no país ao longo dos anos pelo AL III. Esta missão é actualmente ainda assegurada com duas aeronaves em alerta permanente, uma na BA11 em Beja e outra no destacamento no AM1 em Ovar. O apoio aos incêndios florestais e situações de catástrofe é também uma missão desempenhada, sempre que chamados a intervir pelas autoridades civis competentes.

Do lado esquerdo da deriva e sobre a cor branca referida, a letras de ouro o logótipo das comemorações dos 50 anos da frota  SE3160 Alouette III da Força Aérea Portuguesa.


Um encerramento não-oficial das comemorações


Ao fim deste meio século, em que quase centena e meia de AL III envergaram a Cruz de Cristo, restam apenas meia dúzia operacionais para carregar o testemunho (19302, 19312, 19349, 19368, 19376, 19401). O feito, não é contudo despiciendo e muito deve à abnegação e empenhamento dos mecânicos que durante estas cinco décadas os mantiveram em condições de voo. Uma prova disso mesmo, foi dada no encerramento das actividades de 2013, com a simbólica exibição da bandeira branca por parte da Manutenção, sinal de que todas as aeronaves da frota estavam disponíveis para voar; e o subsequente voo em formação das mesmas (exceptuando a aeronave de alerta destacada no AM1 por razões óbvias).
Pode dizer-se que foi um encerramento não-oficial das comemorações do cinquentenário do AL III, com uma prova inequívoca da vida que ainda lhe corre nas veias.

Quando se fala do Aloutte III e dos Zangões, é difícil saber se o espírito cultivado dentro da Esquadra foi herdado da máquina que operam, ou se pelo contrário as qualidades que se reconhecem ao “Zingarelho”, de servir muito além do dever e um generoso espírito de sacrifício, foram adquiridos dos homens que o fazem voar.
Seja qual for a verdade, a “malta dos helicópteros”* será sempre uma classe à parte no universo da aviação militar. E o Alouette III o seu símbolo maior.










* Expressão do hino dos Zangões

Agradecimentos: Todos os elementos da Esquadra 552 sem excepção. Gab. De Relações Públicas da Força Aérea. Miguel Amaral

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